Diocese de Garanhuns


Notícias Diocese  22/03/2018

Discurso de Dom Paulo na Assembleia Legislativa

SESSÃO SOLENE – CENTENÁRIO DA DIOCESE DE GARANHUNS

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO PERNAMBUCO

21 DE MARÇO DE 2018

 

Excelentíssimo senhor presidente dessa Sessão Solene, Deputado Sílvio Costa Filho, representando o Senhor Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Pernambuco, Deputado Guilherme Uchoa;

Excelentíssimo Sr. Deputado Álvaro Porto, autor do requerimento 4.679 de 2018, solicitando esta Sessão Solene em comemoração aos 100 anos de criação da Diocese de Garanhuns;

Senhoras deputadas, senhores deputados;

Prezadas senhoras, prezados senhores, boa noite.

         O professor português António Nóvoa, retomando o tratado da gratidão de Santo Tomás de Aquino, nos ajuda a compreender o significado do verbo agradecer na língua de Camões. Entre os idiomas mais conhecidos do ocidente, somente a Língua Portuguesa é capaz de expressar o nível mais profundo do agradecimento. Em algumas línguas, como em Inglês, Alemão e Holandês, o agradecimento é feito no nível mais superficial: agradecer é um ato de reconhecimento do pensamento, é uma função cognitiva e cerebral (Thanks, Danke, Bedankt); noutras ‒ e estamos no segundo nível ‒, como em Francês, Italiano e Espanhol, a gratidão é um reconhecimento do favor, da benevolência ou da misericórdia de outrem; dar graças a alguém por aquilo que essa pessoa fez por nós (Merci, Grazie, Gracias); em Português, quando agradecemos, nós estamos dizendo: a partir de hoje, eu permaneço obrigado a você; por causa desse gesto de generosidade da sua parte para comigo, eu estou vinculado e comprometido com você. Eu fico, portanto, obrigado (obligatus - ligado), comprometido e vinculado com essa instituição pelo reconhecimento que os senhores prestam à Diocese de Garanhuns.

         É a primeira vez que falo a pessoas tão eminentes. Aliás, refaço o que eu disse. Tenho falado cotidianamente a pessoas tão importantes e caras... A pessoas cheias de sonhos e de esperanças, a pessoas feridas à beira do caminho à espera de um Bom Samaritano. Tenho falado a pessoas cuja única esperança é o Senhor. Como outrora, são encurvadas pelo sistema de exclusão; têm mãos ressequidas pela impotência diante dos desafios da vida que as esmagam; são leprosos sociais, que não podem participar do convívio humano; são cegos, surdos e mudos, a quem não lhes foi permitido ver, ouvir e falar.

         Há mais de três séculos, a fé cristã católica está presente nas regiões que compõem a Diocese de Garanhuns. No início, nossas paragens eram chamadas de Campos dos Garanhuns. Ali residiam várias tribos indígenas, das quais, duas ainda resistem: os Fulni-ô e os Xixi-a-clá, em Águas Belas. Mesmo antes de o Quilombo dos Palmares ser destruído, em 1696, negros fugidos subiam o leito do Rio Mundaú e se estabeleciam em nossas terras. Há, nas nossas regiões, dezenas de comunidades remanescentes quilombolas. Aos poucos, também os brancos começam a chegar de várias partes. Eram os “vaqueiros do Nordeste” e soldados milicianos. Tinham a missão de estabelecer piquetes e demarcar terras. Vieram especialmente das ribeiras do Rio São Francisco, “o grande polarizador e condensador de povos” no dizer do historiador Pedro Calmon. “O gado irrompeu com os sertanistas. As estradas de boiadas foram os caminhos definitivos” (João de Deus de Oliveira Dias). Desejavam encontrar campos e outeiros onde pudessem se dedicar à criação de gado bovino. Assim, formaram-se fazendas a partir de sesmarias e glebas entregues pela Coroa. A nossa, portanto, é uma terra de negros, índios e currais. A mameluca Simoa Gomes é expressão desses encontros e desencontros étnicos nem sempre serenos.

         Mesmo existindo divergência entre os autores, o certo é que, em 1691, a Povoação Monte Alegre ‒ posteriormente, chamada de Vila de Cimbres, próxima à atual Pesqueira ‒ era a sede da Capitania do Ararobá. Depois da destruição do Quilombo dos Palmares, isto é, depois de 1700, a sede da capitania parece, em algum momento, ter sido transferida para Garanhuns. No âmbito civil, inicialmente foi estabelecido um distrito judiciário sob forma de “Julgado”; e no âmbito eclesiástico, foi estabelecido um “Curato” sob o patrocínio de Santo Antônio. Em 1756, Dona Simoa Gomes doa uma quadra de terra para a “Confraria das Almas”, existente na Matriz do Curato de Santo Antônio do Ararobá. Em 1762, com a criação da Vila de Cimbres, Garanhuns passou a chamar-se “Povoação de Santo Antônio dos Garanhuns”. Embora precise ser confirmada pelos historiadores, em 1786, é criada a Freguesia de Santo Antônio dos Garanhuns. Aí estão os primeiros germes de nossa diocese.

A Vila de Garanhuns foi fundada aos 10 de março de 1811. E elevada à categoria de cidade em 1879. Chegou a estrada de ferro, expandiu-se o comércio, cresceu a população; estabeleceu-se a cultura cafeeira associada à produção leiteira. A cidade se transformou num grande polo estudantil. Estabeleceram-se três colégios, hoje centenários. No ambiente da Igreja, percebia-se que as renovações propostas pelo Concílio de Trento e pelo processo de Romanização ainda não se tinham implantado suficientemente em nossos rincões. Depois da Proclamação da República, ainda não se havia estabelecido plenamente a distinção entre os poderes civis e eclesiásticos. As distâncias geográficas eram imensas. Tudo dependia de Recife e Olinda. Do outro lado do mundo, a humanidade vivia os horrores da Primeira Guerra Mundial e a implantação de regimes comunistas, enquanto Nossa Senhora pedia em Fátima: conversão, oração e paz.

O sonho da criação da Diocese de Garanhuns foi acalentado por Monsenhor Afonso Pequeno. A ideia foi acolhida pelo Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra, que se empenhou pessoalmente para concretizá-lo. Também o Cônego Benigno Pereira de Lira, pároco da Paróquia de Santo Antônio, em Garanhuns, não mediu esforços para preparar um patrimônio mínimo para a futura diocese. A Igreja Matriz de Santo Antônio foi restaurada e embelezada para tornar-se Catedral. Assim, aos 02 de agosto de 1918, Bento XV, por meio da Bula Archidioecesis Olindensis et Recifensis, cria as Dioceses de Nazaré, Garanhuns e Pesqueira, suprimindo a Diocese de Floresta e anexando-a a essa última.

Depois da criação da Diocese de Palmares, desmembrada da Diocese de Garanhuns, em 1962, nosso território é de 8.734 km2, composto de 36 paróquias em 26 municípios: dois na Zona da Mata; dois no Sertão; e 22 no Agreste. A população é de aproximadamente 700 mil habitantes. Eu sou o décimo primeiro bispo. Embora o patrono da Catedral seja Santo Antônio, o padroeiro diocesano é São José. A Diocese de Garanhuns possui uma imensa atividade pastoral e missionária, na dimensão da Palavra, da Liturgia e da Caridade. É de destacar a existência do Santuário da Mãe Rainha, destino de peregrinações constantes, e das Fazendas da Esperança (masculina e feminina).

Com muita humildade e ousadia, gostaria de chamar a atenção dessa casa legislativa e pedir o empenho de Vossas Excelências em vista de três grandes desafios na nossa região:

1) A problemática da violência. Vou citar o exemplo concreto de Lajedo. Esse ano, nesse primeiro trimestre, já foram assassinadas 16 pessoas em Lajedo. Significa que, nesse ritmo, se chegará ao final do ano com uma taxa de 64 mortes violentas intencionais para uma população de aproximadamente 40 mil habitantes. A taxa média do Brasil é 26 mortes violentas anuais por cem mil habitantes; a taxa média do Estado do Pernambuco é de 48 mortes violentas por cem mil habitantes; a taxa proposta pela Organização Mundial da Saúde, órgão da ONU, é de 12 mortes violentas por cem mil habitantes. Nesse ritmo, Lajedo chegará ao final do ano com mais de 120 mortes violentas por cem mil habitantes. Isso é uma taxa muito maior do que a taxa de qualquer país em guerra.

2) Água e barragens. Durante a crise hídrica dos seis anos anteriores, vários municípios da nossa Diocese de Garanhuns padeceram profundas crises de água. Além disso, nos municípios de São Benedito do Sul, Quipapá e Correntes, houve inundações em 2010 e mais recentemente. É urgente a elaboração de uma nova política de águas para a região, inclusive com a construção das barragens de contenção e de adutoras.

3) Vocação econômica. Vários municípios de nossa diocese carecem de projetos que viabilizem sua vocação econômica. Para citar dois exemplos: os dois municípios da Zona da Mata (São Benedito do Sul e Quipapá) padecem a crise da economia canavieira; os municípios do Agreste, especialmente Garanhuns, padecem a crise da economia cafeeira e de laticínios. Não podemos permanecer prisioneiros de um passado de glória.

Para nós, da Diocese de Garanhuns, abre-se um novo ciclo. Desejamos ardentemente fazer parcerias, dar as mãos, dialogar, estreitar laços, cooperar com o futuro dessa terra promissora e abençoada. Assim, o novo centenário que se abre seja marcado por árduo e frutífero trabalho.

Um grande cantor italiano chamado Eugenio Finardi diz: “Non diventare grande mai. Non serve a niente, sai? Continua a crescere più che puoi e non fermarti mai!” (Não te tornes grande jamais! Não serve pra nada, sabes? Continua a crescer o máximo que podes e não pares jamais). É este o meu sentimento como bispo dessa diocese centenária. Ela é apenas uma adolescente. Garanhuns, “continua a crescer o máximo que podes e não pares jamais!” Ad altiora, ad maiora! Obrigado.

Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa

Bispo de Garanhuns